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Conversa de
Ateliê O ateliê de Ângelo de Aquino fica no
primeiro andar de um antigo prédio de apartamentos numa das mais boêmias ruas do Baixo
Leblon, no Rio de Janeiro.
Passei pela figuração nos anos 60, depois me envolvi numa pintura construtiva, até que cheguei a trabalhos monocromáticos. Quando passei a morar em Milão comecei a realizar trabalhos de forma mais conceitual, usando palavras, texto em pinturas e nos desenhos a lápis. Acho que foi quando senti que meu trabalho tinha um desenvolvimento ao passar a trabalhar com o que acho que tenho mais facilidade, isto é, apesar da intuição só entrar como forma de pensamento, a pintura passou a ser mais construída. Até hoje, acho que a maneira que pinto um quadro é construída, não é tão espontânea mais. Quero dizer que ele pode ser espontâneo na pincelada, mas tem estrutura de cor. No período conceitual dos anos 70, quando morava em Milão, é que comecei a ter um aprendizado mais geral. Lá podia ver o que estava acontecendo de mais avançado e pude entrar em contato com a mais radical produção contemporânea. Estava lá em 1970 e de imediato fiz uma exposição numa galeria que era extremamente radical, ponta de lança das vanguardas da época. Ela se chamava Centro Tool, cujo proprietário era um artista muito ligado a uma poesia visiva e conceitual.
Em que consistia a exposição? Chama-se Through the Amazonas. Expus telas e papéis, todas de cor verde, mas com muita coisa escrita. Tinha uma atmosfera muito poética, e usava muitos carimbos. O que estava procurando era achar o meu espaço na avalanche conceitual daquele tempo. Procurava achar meu espaço, um modo de me diferenciar dos outros artistas. Considero que iniciou ali a minha diferenciação. Comecei a interrogar e fazer meu trabalho de uma maneira que não era igual ao dos outros artistas. Pode-se imaginar que havia mais de 90 mil artistas trabalhando com palavras, gestos, instalações, fazendo performances. Naquele período, houve uma brutal massificação de todas as tendências que se situavam na vanguarda. Misturava-se arte povera com Land Art, performances. O que aconteceu é que a generalização do que se chamava arte conceitual foi enorme e muito mais ampla. É esse tempo que se pode chamar de pedagógico?
Você partiu da expressão verbal ou ela vinha depois? A construção da obra começava pela palavra que era usada para estruturá-la. Quando estava em Milão, utilizei-me da Amazônia, que eu dividia em linhas equatoriais uma espécie de denúncia sobre a destruição da floresta e de sua entrega a grupos estrangeiros. A partir dessa experiência é que o trabalho ganhou um corpo. Data dessa época o desenvolvimento de um trabalho que eu poderia chamá-lo como meu, em que a autoria já não era discutida por mim. Foi nesse tempo que realizei também vários vídeos e filmes. Como eram esses vídeos? Posso ser considerado um dos pioneiros, no Brasil, da vídeoarte. Tenho como testemunha o crítico Frederico de Moraes que escreveu sobre isso, atestando as minhas primeiras experiências nesse campo. Na verdade, tratava-se de performances espontâneas. Realizei um vídeo, no qual chego num bar um bar da moda intelectual daqueles tempos, chamado Luna Bar, no Leblon e começo a fazer discursos aleatórios, com a participação do cronista Carlinhos de Oliveira. Este vídeo hoje está com o crítico e animador cultural argentino Jorge Glusberg. Um outro, que também ficou com ele chamava-se Nadador. Era em 16 mm e tratava de um personagem nadando numa piscina, da qual não podia sair. Lentamente, ele vai se sufocando. E que mais você fazia naquela época? Foi um período de grande atividade para os artistas que estavam engajados naquelas vanguardas. Cheguei da Europa, em 73, realizei dez exposições, que podiam vir através dos Correios. Não custa lembrar que a Mail Art, era outra tendência muito forte. Artistas de paises os mais diversos enviavam o seu material e nós os montávamos aqui. A gente organizava isso numa butique chamada Veste Sagrada. Na segunda-feira, tirávamos tudo da loja e montávamos a exposição. Depois resolvemos transformar a butique numa galeria chamada de Central de Arte Contemporânea. Lá fizemos exposições do Barrio, do Luis Alphonsus e de muitos outros artistas emergentes. Arte postal, vídeo, instalações, tudo se ajuntava naquela época. Você pintava naquela época? Naquele período trabalhava em papel, mas também de forma bastante conceitual. Fui convidado para expor na Polônia e fiz lá uma instalação. Meu trabalho de 70 a 75 pode ser considerado muito profícuo, porque naquele contexto experimental podia-se fazer inúmeras coisas. Em 75, senti que estava caindo numa redundância. Comecei a pensar que chegara a um limite e não tinha mais nada a fazer com aquele tipo de experiência. A fórmula para mim começou a ficar cansativa, esgotada. Foi então que remotei a pintura. |
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